Estatal faz a maior contratação de
serviços desde início da Lava-Jato
Petrobras faz profunda reforma em 39 plataformas de petróleo na Bacia de
Campos. Foto de divulgação. Na foto, a P-37
RIO - A Petrobras encerra o ano com a
maior contratação de serviços desde 2014, quando foi abalada pelo esquema de
corrupção revelado pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. Desde então, a
companhia paralisou todas as grandes contratações, como o Comperj. A estatal
está fazendo uma profunda reforma em 39 plataformas de petróleo na Bacia de
Campos, visando a aumentar a produção. O número representa cerca de 75% das 53
unidades existentes no local. Dividida em três licitações, a expectativa é que
a nova leva de encomendas receba investimentos de R$ 3 bilhões e gere pelo
menos três mil empregos diretos, de acordo com projeções da Abespetro,
associação que reúne empresas prestadoras de serviços para a indústria
petrolífera.
A contratação de serviços, considerada
a maior da história da Bacia de Campos, vai beneficiar principalmente a cidade
de Macaé, no Norte do Estado do Rio. A expectativa de geração de vagas domina
as conversas dos trabalhadores do setor, e muitos já pensam em voltar para a
cidade, uma das mais afetadas nos últimos anos pela crise provocada pela
redução dos investimentos da Petrobras e pela queda do preço do petróleo, com o
fechamento de cerca de 40 mil vagas. Empresários da região também indicam um
aquecimento na procura de companhias do setor.
A Petrobras está realizando neste
momento uma licitação dividida em três lotes para serviços de manutenção em 25
plataformas. Participam da concorrência 19 empresas nacionais e estrangeiras.
Segundo a estatal, a contratação será concluída até abril, com a mobilização do
serviço a partir de junho de 2018. O valor estimado deve superar a cifra de R$
1 bilhão, e a expectativa é a geração de mil vagas.
Uma outra licitação está prevista com
prazo de entrega das propostas para este mês. Neste caso, são dois lotes que
envolvem serviços em 14 plataformas. Essa licitação também deve gerar
investimentos da ordem de R$ 1 bilhão e mais mil postos de trabalho. Para 13
dessas unidades, a Petrobras realizou uma primeira licitação meses atrás, que
foi dividida em quatro lotes, com expectativa de movimentar outro R$ 1 bilhão.
Concluída em agosto, levaram os contratos as companhias O Engenharia, da
francesa Vinci, e a CSE, da Aker.
NÍVEL DE CONSULTA PRÉ-CRISE
Todas as licitações envolvem serviços
de manutenção das plataformas, de pintura a troca de diversos componentes, como
tubulações, e serviços de caldeiraria. Esses contratos englobam a encomenda
para construção e, depois, a instalação dos equipamentos nas plataformas.
— As três concorrências em andamento
vão criar mais de três mil vagas a partir de 2018 na região de Macaé. Um
indicador inequívoco da retomada da atividade no setor petroleiro — destacou
Telmo Ghiorzi, diretor da Abespetro.
Ghiorzi disse ainda que as licitações
da Petrobras vão contribuir para aumentar a produção de petróleo na Bacia de
Campos, que responde por 44% da produção nacional de petróleo, com um total de
1,483 milhão de barris por dia. A região vem perdendo espaço para o pré-sal da
Bacia de Santos, que já responde por 44,7% da produção nacional, com 1,507
milhão de barris diários.
— No Brasil, apenas 24% do petróleo
presente nas jazidas são de fato produzidos. É um valor baixo. E esses serviços
de manutenção certamente vão ajudar a aumentar a produção desses campos. No
mundo, esse percentual médio é de 35%, chegando a 70% em alguns lugares —
completou Ghiorzi.
Maurício Almeida, presidente da Associação
Brasileira de Engenharia da Construção Onshore, Offshore e Naval (Abecoon), diz
que a as reformas das plataformas na Bacia de Campos representa atualmente a
maior licitação em andamento pela estatal.
— A estratégia da Petrobras com essas
licitações é reduzir a queda na produção na Bacia de Campos. Por isso, a
companhia está ampliando os investimentos com essas licitações. A empresa quer
renovar as plataformas. E isso é muito bom, pois vai gerar muitos empregos,
sobretudo, em Macaé. As empresas já estão falando em aumento de contratação, de
criação de vagas. E isso é ótimo, depois de anos de retração — disse Almeida.
Em Macaé, há otimismo. Leonardo Dias,
diretor do Parque Industrial BellaVista, que reúne companhias do setor de óleo
e gás, afirmou que atualmente uma empresa mostra interesse em investir no
espaço a cada semana. Segundo ele, esse ritmo é o mesmo do nível pré-crise,
antes de 2014. O executivo cita a chegada de quatro companhias recentemente.
Somente a VRV Comércio de Equipamentos Hidráulicos e Mecânicos e a Alternativa
Catering vão gerar por volta de 140 empregos.
— Além disso, estamos em negociação com
outras duas empresas que estão participando das licitações da Petrobras. Mas as
negociações são longas, e podem chegar a seis meses. Hoje, além de vender o
terreno, montamos o projeto da base industrial como forma de agregar valor. O
que percebo é que as mudanças na lei feitas pelo governo permitiram uma mudança
de humor no setor — explicou Dias.
Em Macaé, onde o petróleo responde por
70% dos empregos gerados, as licitações da Petrobras podem trazer dinamismo
para a cidade. Segundo projeções do prefeito da cidade, Aluízio dos Santos
Júnior, a expectativa é que sejam gerados 25 mil empregos na cidade nos
próximos anos. Esse número é reflexo do novo momento do setor, que inclui os
planos de revitalização dos campos maduros e os leilões feitos pela Agência
Nacional do Petróleo (ANP).
— Hoje, o setor emprega cerca de 50 mil
pessoas em Macaé. As reformas que a Petrobras quer fazer nas plataformas são
fundamentais para gerar emprego e aumentar a produção de petróleo. O ano de
2017 foi importante pelas mudanças nas regras de operador único no pré-sal e no
regime de partilha — disse o prefeito.
Do outro lado, sindicatos que
representam os trabalhadores criticam a falta de informações por parte da
Petrobras. Amaro Luiz Alves da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores
Offshore do Brasil (Sinditob), diz que é difícil prever o volume de vagas que
pode ser gerado a partir de 2018:
— De setembro de 2014 a novembro de
2017, foram 39.184 rescisões. Há empresas que não estão operando mais.
LICITAÇÕES ENVOLVENDO MUITAS EMPRESAS
O executivo da Abespetro aformou que a
Petrobras tem convidado cerca de 20 empresas para participar das licitações. O
número é bem diferente do período anterior à Operação Lava-Jato, quando as
licitações envolviam de duas a três companhias. Segundo executivos do setor, as
disputas têm sido tão acirradas que, em alguns casos, a diferença de preço nas
propostas apresentadas é inferior a 1%.
— As concorrências cujos resultados já
foram divulgados mostram competição acirrada e preços muito próximos entre os
licitantes — comentou Ghiorzi.
Especialistas lembraram que ainda há a
perspectiva de novas encomendas para o setor. A lista, dizem eles, é animadora.
Eles citam as obras da unidade de processamento de gás natural do Comperj, em
Itaboraí, novas plataformas de produção e até mesmo a prestação de serviços
para o encerramento das atividades de algumas plataformas, o chamado
descomissionamento.
— O país precisa se preparar para que a
demanda por descomissionamento gere capacitação técnica — disse o diretor da
Abespetro.

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